A cena de jornalistas e parlamentares agredidos durante tumulto na Câmara dos Deputados, na última terça-feira (9), acendeu um alerta sobre o funcionamento do Legislativo brasileiro. Para a cientista política Beatriz Rey, doutora pela Syracuse University e pesquisadora do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, os episódios são sintoma de um processo mais profundo de desinstitucionalização da Câmara.
A confusão ocorreu quando agentes da Polícia Legislativa tentaram remover à força o deputado Glauber Braga (PSOL-RJ) da Mesa Diretora, ocupada por ele em protesto contra a tentativa de cassação de seu mandato. O episódio levou a Associação Brasileira de Imprensa (ABI) a anunciar que acionará a Procuradoria-Geral da República para investigar possível crime de responsabilidade do presidente da Casa, Hugo Motta (Republicanos-PB).
Segundo Rey, “sempre que a força vira instrumento para resolver conflitos sociais, é sinal de que as instituições falharam em cumprir seu papel”. Para ela, a Câmara vive um paradoxo: ao mesmo tempo em que está politicamente empoderada, perde capacidade de controle interno e mediação institucional.
Tensão com o STF e perda de autogoverno
A pesquisadora aponta que o cenário é agravado pela escalada de conflitos entre o Legislativo e o Supremo Tribunal Federal (STF). Um dos exemplos é a aprovação do PL da Dosimetria, que altera penas para crimes de tentativa de golpe de Estado. Outro ponto crítico foi o caso da deputada Carla Zambelli (PL-SP).
Após a Câmara decidir manter o mandato da parlamentar, mesmo diante de condenação criminal, o STF interveio. A Primeira Turma da Corte confirmou decisão do ministro Alexandre de Moraes que determinou a perda automática do mandato. Zambelli acabou renunciando ao cargo no domingo (13).
Para Rey, “o caso da não cassação de Zambelli é um exemplo primoroso de como a Câmara não está cumprindo seu papel. Ela está perdendo a capacidade de se autogovernar”. Na avaliação da pesquisadora, quando o Legislativo não age, o Judiciário acaba ocupando esse espaço, aprofundando a crise entre os Poderes.
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Estilos de liderança e crise de comando
Ao comparar a atual gestão com a anterior, Rey destaca diferenças entre Arthur Lira e Hugo Motta. Lira, segundo ela, era centralizador e truculento, mas mantinha controle do plenário e cumpria acordos políticos. Já Motta é visto como menos autoritário, porém sem prestígio suficiente para comandar a Casa.
“O presidente da Câmara precisa ter controle do plenário. A fonte desse controle varia. No caso de Hugo Motta, ele não é autoritário nem respeitado. Está numa situação muito complicada”, afirmou.
Emendas, Centrão e o jogo de 2026
A cientista política também relaciona a crise às emendas parlamentares e ao fortalecimento do Centrão. Para ela, as emendas deixaram de ser instrumento de construção de base e passaram a funcionar como moeda de barganha pontual, inclusive em votações sensíveis à democracia.
Rey avalia que o Centrão está empoderado e já se movimenta visando as eleições de 2026, demonstrando distanciamento da família Bolsonaro e busca por alternativas eleitorais. Nomes como Tarcísio de Freitas, Ratinho Júnior, Romeu Zema e Ronaldo Caiado aparecem como possíveis candidatos com apoio desse bloco.
Democracia e eleições legislativas
Sobre críticas de parlamentares que classificam decisões do STF como “ditadura”, Rey é direta: “O simples fato de poderem dizer isso mostra que não há ditadura”. Para ela, o problema central é o desajuste entre os Poderes, causado pelo descumprimento de funções institucionais.
Por fim, a pesquisadora defende maior atenção da sociedade às eleições legislativas. “O bolsonarismo já entendeu a centralidade do Congresso. Quem ainda não entendeu foram outros campos ideológicos”, disse. Segundo Rey, o fortalecimento da democracia passa por eleger parlamentares comprometidos com a instituição, e não apenas com disputas presidenciais.






