As primeiras aulas do curso de Medicina voltado exclusivamente para quilombolas e assentados rurais da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) começaram nesta semana, transformando em alívio e alegria o que, por meses, foi motivo de tensão, ataques e disputas judiciais. O grupo é formado por 80 estudantes vindos de zonas rurais de diversos estados brasileiros — 59 mulheres e 21 homens — que agora iniciam uma jornada inédita no país.
As lágrimas vistas no campus não eram apenas de emoção pela conquista, mas também de revolta acumulada por quem sempre precisou enfrentar barreiras para acessar direitos garantidos por lei. Quilombolas, camponeses e filhos de trabalhadores da terra celebram o início de um curso que, desde seu anúncio, foi alvo de críticas e tentativas de judicialização por setores conservadores e entidades médicas.
Ataques preconceituosos e resistência
“Sabemos como é difícil encontrar pessoas negras e quilombolas em cursos de medicina. Vi no TikTok pessoas dizendo que não temos capacidade, que seríamos ‘médicos de açougue’ e outras coisas preconceituosas”, lembra Milenna Ketlyn, de 21 anos, estudante da comunidade quilombola-indígena Tiririca dos Crioulos, em Carnaubeira da Penha (PE). Ela afirma que pretende retornar ao interior após a formação: “Quando se é da própria comunidade, vemos as pessoas de forma humanizada. São nossos parentes e amigos.”
Gildson Amaro, 29, da zona rural de Sergipe e graduado em nutrição, destaca a importância do curso: “Senti na pele a dificuldade de não conseguir atendimento médico na comunidade. Sei quanto faz diferença ter um profissional que entende aquele povo e olha com amor para ele.” Ele rebate as críticas: “O Pronera existe desde 1998 e é totalmente regulamentado.”
Desde setembro, políticos de direita e representantes de entidades médicas investiram em discursos contrários ao projeto, alegando favorecimento indevido e incapacidade dos selecionados — acusações classificadas como infundadas por juristas e pela própria UFPE.
O que é o Pronera
Criado em 1998, o Programa Nacional de Educação na Reforma Agrária (Pronera) já formou mais de 200 mil estudantes, em diferentes níveis de ensino, sempre com vagas destinadas a moradores de áreas de reforma agrária. O curso de Medicina da UFPE é financiado pelo Ministério do Desenvolvimento Agrário e pelo Ministério da Saúde, e não interfere no ingresso via Sisu.
Segundo Rubneuza Leandro, dirigente do MST, a resistência ao projeto está ligada ao elitismo histórico da profissão: “Precisaram vir médicos de outros países porque os daqui se recusaram ir ao interior. Quando vieram médicos pretos, disseram que ‘pareciam empregadas domésticas’. Por isso tanto ódio quando formamos uma turma de agricultores que serão médicos.”
SUS para cidade e campo
Durante a aula inaugural, a representante do Ministério da Saúde, Lívia Milena Méllo, ressaltou o caráter social da iniciativa: “O Pronera forma profissionais que entendem a realidade do campo. O SUS pertence igualmente à cidade e ao campo.”
O reitor da UFPE, Alfredo Gomes, comemorou: “A universidade está realizando sua missão social. A educação é meio para romper ciclos de desigualdade.” Ele defendeu que outras universidades repliquem o modelo.
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Uma nova cara para a medicina
O discurso mais emocionado veio da deputada estadual Rosa Amorim (PT), militante do MST: “As lágrimas são de felicidade e carregam séculos de luta por reparação histórica. Aos que disseram que filho de agricultor e de empregada doméstica jamais ocuparia uma cadeira de medicina, estamos aqui para dizer que ocuparemos.”
Ela destacou o exemplo de Maria Eduarda, filha de trabalhador sem-terra: “Ela tem a pele preta que construiu este país. Este lugar nos negaram, mas viemos para ficar. Essa será a nova cara da medicina.”
Docentes e estudantes unidos pela causa
A professora Andreia Campigotto, que é filha de assentados e cursou medicina em Cuba, afirmou que o curso tem significado pessoal profundo: “Sei que a trajetória até aqui não foi fácil. A universidade está cumprindo seu papel ao abrir as portas para o povo.”
Rubneuza Leandro fez um chamado à responsabilidade dos alunos: “Lá fora muita gente está torcendo para que dê errado. Se empenhem. Vocês representam suas comunidades. Honrem essas bandeiras.”
Conquista histórica, fruto de luta coletiva
O curso enfrentou liminares e tentativas de suspensão, mas seguiu adiante com apoio do reitor, de docentes e de movimentos sociais. “Foram muitas brigas, disputas judiciais e luta por orçamento. Vocês representam essa vitória”, disse a deputada Rosa Amorim.
Rubneuza acrescentou: “Já formamos médicos do MST em Cuba e na Venezuela, mas esta é a primeira turma formada por uma universidade brasileira. Que venham também cursos de odontologia e enfermagem.”






