A tradição de consumir bacalhau durante a Sexta-Feira Santa, período que antecede a Páscoa, é um dos costumes mais enraizados na cultura das famílias católicas brasileiras. Contudo, em quase quatro décadas de sacerdócio, o padre Eugênio Ferreira de Lima reforça um questionamento recorrente: a incoerência entre o alto custo do peixe em relação a outras proteínas e o verdadeiro sentido do jejum quaresmal. Para o religioso, a abstinência de carne vermelha perde seu valor espiritual se não estiver acompanhada de atos de caridade e do compartilhamento do que foi economizado com aqueles que vivem em situação de vulnerabilidade social. Essa reflexão ganha ainda mais peso em um cenário econômico desafiador, onde a inflação impõe restrições severas à mesa dos brasileiros.
Para compreender a origem desse hábito, é preciso desmistificar o papel do bacalhau na teologia e na história. Especialistas indicam que não existe uma única explicação, mas sim uma combinação de fatores culturais, religiosos e logísticos. O costume de não consumir carne vermelha remete à ideia de penitência e austeridade, uma forma simbólica de refletir sobre o sacrifício de Jesus na cruz. A escolha pelo peixe, por sua vez, consolidou-se pela influência direta de Portugal, país que introduziu essa iguaria no Brasil. Antes da popularização da refrigeração, o bacalhau, devido ao seu processo de cura e salga, apresentava uma durabilidade excepcional, tornando-se uma solução prática para o cumprimento dos preceitos da Igreja.
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Historicamente, a teologia da abstinência de carne vermelha foi consolidada por figuras como São Tomás de Aquino, que associava a carne bovina a prazeres terrenos e luxúria, contrastando-a com a sobriedade do peixe. Contudo, a definição do que é considerado "peixe" variou drasticamente ao longo dos séculos e regiões. Enquanto algumas correntes religiosas interpretam a norma baseadas em critérios biológicos, outras, como visto em certas tradições americanas ou canadenses, chegaram a classificar animais como jacarés e castores na categoria de peixes para fins de consumo quaresmal. Essa flexibilidade demonstra que a regra muitas vezes se adapta ao contexto cultural e à disponibilidade local.
Por fim, é inegável que o mercado desempenha um papel fundamental na perpetuação desse hábito. Com a chegada da corte portuguesa ao Brasil em 1808, o bacalhau ganhou status e consolidou-se como um símbolo da culinária de celebração. Hoje, o consumo vai além do preceito religioso, integrando o ecossistema comercial que movimenta o varejo durante a Quaresma. Enquanto especialistas como o professor André Leonardo Chevitarese apontam que a prática deve ser lida sob a ótica da simbologia teológica e não apenas econômica, o fato é que a tradição persiste. Seja pela fé ou pela convenção social, o bacalhau permanece como protagonista central na mesa dos brasileiros, mantendo vivo um elo com o passado colonial português.






