Apesar do clima de tensão gerado pela ameaça do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de lançar uma ação militar contra a Venezuela, a rotina nas ruas de Caracas revela que a maior preocupação da população segue sendo a sobrevivência diária. No mercado popular de Quinta Crespo, na capital, comerciantes e clientes tentam manter o ritmo em meio à crise econômica e ao medo de falar abertamente sobre política.
“O que nos prejudicou foi a valorização do dólar”, disse o comerciante Alejandro Orellano, à BBC News Mundo, enquanto esperava clientes que não chegavam. Sua fala resume a angústia de muitos venezuelanos que, há anos, enfrentam inflação descontrolada e perda de poder de compra. Um quilo de frango chega a custar quatro vezes o salário mínimo, e até com os bônus governamentais a cesta básica permanece fora do alcance de grande parte da população.
A tensão internacional cresceu desde setembro, quando o governo Trump enviou tropas e o porta-aviões USS Gerald R. Ford para o Caribe. Ataques aéreos contra supostas “narcolanchas” no Caribe e no Pacífico oriental — que já deixaram 83 mortos — alimentam suspeitas de que a ofensiva pode fazer parte de uma estratégia para forçar a saída de Nicolás Maduro. Até esta segunda-feira (24/11), ao menos sete companhias aéreas cancelaram voos para a Venezuela após alertas de segurança dos EUA.
Clima de medo após eleições contestadas
O governo Maduro é considerado ilegítimo por Washington e por diversos países latino-americanos desde as eleições de 2024, amplamente criticadas pela comunidade internacional — inclusive pelo Brasil, que não reconheceu o resultado.
Desde os protestos que se seguiram ao pleito, mais de duas mil pessoas foram detidas, segundo dados oficiais. A ONG Foro Penal aponta que 884 venezuelanos seguem presos por motivos políticos. Há relatos de detenções após críticas ao governo dadas à imprensa. Especialistas da ONU denunciaram violações de direitos humanos, incluindo perseguição política, uso excessivo da força e desaparecimentos forçados.
A repressão gerou uma cultura de silêncio: “Estamos assustados, calados… tenho medo de ser presa”, disse, sob anonimato, uma comerciante de Ciudad Bolívar.
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Expectativa, descrença e rotina
Em meio ao clima tenso, muitos venezuelanos alternam entre descrença e esperança de mudanças. “Estamos todos esperando que algo aconteça…”, afirma Bárbara Marrero, 40, confeiteira. Já Consuelo, 74, tenta se proteger emocionalmente: “Isso só deixa a gente doente… é melhor manter a calma”.
No leste de Caracas, camelôs continuam a chamar clientes como em qualquer outro dia. Javier Jaramillo, vendedor de 57 anos, admite temer uma invasão quando ocorrem quedas de energia, mas pondera: “O que mais preocupa é a comida”.
Apesar do discurso oficial celebrando avanços econômicos, a inflação avança. Economistas afirmam que os preços sobem cerca de 20% ao mês. O FMI projeta alta de 548% em 2025 e 629% em 2026, a maior da América Latina.
Entre prontidão militar e preocupação humanitária
Maduro pediu que a população “fique atenta, olhos abertos”, acusando a CIA de tentar sabotar a economia venezuelana. Milicianos como Francisco Ojeda, 69, garantem que irão reagir a qualquer invasão: “Aqui ninguém vai ficar parado”.
Já outros temem consequências devastadoras. Esther Guevara, 53, funcionária de laboratório, diz: “Muitas pessoas inocentes podem morrer”.
Apesar das ameaças e incertezas, a vida segue em Caracas. Entre medo, esperança e resignação, os venezuelanos tentam manter algum senso de normalidade enquanto observam, de perto, a possibilidade de um conflito internacional.






