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Projeto nacional resgata memórias invisibilizadas e mapeia patrimônios culturais em quatro regiões do Brasil

Por Redação Arcoverde Agora
Projeto nacional resgata memórias invisibilizadas e mapeia patrimônios culturais em quatro regiões do Brasil

O projeto Inventário participativo como instrumento para identificação e gestão do patrimônio cultural, coordenado pela professora Maria Tereza Duarte Paes (IG/Unicamp), está ajudando a recontar histórias invisibilizadas em quatro regiões brasileiras por meio de metodologias participativas inspiradas no IPHAN. Um seminário realizado no fim de outubro, na Unicamp, apresentou os resultados da pesquisa realizada nos núcleos de Tatuí (SP), Belém (PA), São Luís (MA) e Quixadá (CE), incluindo quatro e-books e uma plataforma digital.

Durante três anos, equipes multidisciplinares formadas por geógrafos, sociólogos, arquitetos e historiadores trabalharam diretamente com as comunidades locais para identificar referências culturais materiais e imateriais, muitas vezes excluídas dos processos oficiais de patrimonialização. Segundo Paes, “são populações invisibilizadas que têm grandes riquezas culturais, festas, bens e pessoas que representam heranças muito importantes”.

Tatuí (SP): memória operária e patrimônio industrial

O núcleo paulista mapeou o patrimônio associado à antiga Companhia de Fiação e Tecelagem São Martinho, fundada em 1881. Mesmo fechada desde 1994, a fábrica ainda habita a memória coletiva da cidade. A pesquisa identificou 44 referências culturais, incluindo:

  • jornal operário,

  • registros de greves,

  • episódios de repressão durante a ditadura,

  • objetos ligados ao futebol operário, como camisas e troféus,

  • tecnologias têxteis históricas, como a lançadeira.

Segundo a pesquisadora Simone Scifoni (USP), a fábrica foi durante décadas o principal empregador local, criando vínculos profundos na comunidade. O inventário revelou uma dimensão política e social pouco discutida na cidade.

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São Luís (MA): laços afetivos e pessoas-patrimônio no Desterro

No bairro histórico do Desterro, a equipe identificou 32 referências culturais por meio de oficinas e caminhadas. O local concentra manifestações como:

  • Escola de Samba Flor do Samba,

  • Bumba Meu Boi (Boi de Lendas e Magias),

  • Tambor de Crioula (Os Onças).

A pesquisa destacou ainda cinco pessoas-patrimônio, moradores que preservam e transmitem memória coletiva. Segundo José Arilson Xavier (UEMA), o bairro é culturalmente vibrante, mas socialmente vulnerável, e a metodologia participativa permitiu captar referências que sobrevivem apenas na memória.

Belém (PA): patrimônio vivo em área ribeirinha sob pressão urbanística

No Beco do Carmo e no Mercado Antigo, onde a população vive sobre palafitas, o inventário registrou coletivos culturais, mestres tradicionais e espaços comunitários fundamentais para a vida local. Um bar considerado o “coração do bairro” foi reconhecido como referência cultural, abrigando desde festas religiosas até cerimônias fúnebres.

A pesquisadora Maria Goretti Tavares (UFPA) alerta para as pressões urbanas intensificadas pela preparação de Belém para a COP 30, incluindo a construção de um parque linear próximo à área. “Estamos de olho, porque sabemos que será uma pressão sobre a comunidade às margens do rio”, afirma.

Quixadá (CE): mandalas culturais e resistência territorial

Na comunidade Cedro Novo, situada entre o Açude do Cedro e a Pedra da Galinha Choca, a equipe aplicou oficinas de mandalas, incluindo um encontro exclusivamente feminino. A pesquisa identificou referências ligadas:

  • à pesca artesanal,

  • aos modos tradicionais de construir casas,

  • à vida religiosa,

  • às práticas de resistência frente a tentativas de remoção da comunidade.

Segundo Emilio Pontes (IFCE), surgiram referências não oficiais importantes, como o bar da Mangueira e lideranças religiosas locais.

Próximos passos

O projeto será encerrado formalmente em fevereiro de 2026, com eventos locais em cada núcleo, apresentando:

  • exposições de fotografias,

  • banners,

  • vídeos,

  • materiais em linguagem acessível às comunidades.

A equipe também enviará ao IPHAN um Termo de Referência para democratizar o acesso aos resultados e incentivar novos inventários participativos no país.

Para os pesquisadores, o maior legado é a construção coletiva do conhecimento. “A troca entre diferentes realidades e metodologias foi fundamental”, afirma Paes. Scifoni destaca a riqueza do trabalho interdisciplinar, e Pontes celebra o impacto formativo para estudantes envolvidos na pesquisa.

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