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O Legado de Keynes: Por que a jornada de trabalho de 15 horas semanais não se concretizou?

Por Redação Arcoverde Agora
O Legado de Keynes: Por que a jornada de trabalho de 15 horas semanais não se concretizou?

Em 1930, em meio à instabilidade da Grande Depressão, o renomado economista britânico John Maynard Keynes publicou o influente ensaio "Possibilidades Econômicas para Nossos Netos". Nele, Keynes apresentava uma previsão audaciosa e, para muitos, utópica: em um horizonte de cem anos, o avanço tecnológico e a acumulação de capital permitiriam que a humanidade superasse a escassez material, possibilitando jornadas de trabalho de apenas 15 horas semanais. Para o pensador, o maior desafio da posteridade não seria a sobrevivência, mas sim a gestão do tempo livre e a busca por um propósito na existência, longe da obsessão desenfreada pelo acúmulo de riqueza.

A visão de Keynes confrontava o dogma da economia clássica de que o aumento do trabalho é a única via para a prosperidade. Ele argumentava que, à medida que a produtividade crescesse graças à ciência e à indústria, o trabalho humano tornar-se-ia menos vital para a subsistência básica. No entanto, ao analisarmos o cenário contemporâneo, marcado pela revolução da inteligência artificial e pela automação, percebemos que a realidade divergiu drasticamente das projeções keynesianas. A jornada de trabalho permanece longa, e a sociedade continua imersa em uma lógica de produtividade incessante.

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Especialistas apontam que o principal fator para o "fracasso" da previsão foi a incapacidade de prever a expansão do consumismo moderno. Segundo o cientista político Christian Lohbauer, enquanto a tecnologia aumentou a capacidade produtiva, o desejo humano por bens de consumo e status social cresceu na mesma proporção. Para manter o padrão de vida atual e o acesso a inovações percebidas como essenciais — como smartphones e serviços digitais —, a humanidade manteve o ritmo acelerado de trabalho.

Além da pressão pelo consumo, a distribuição desigual dos ganhos de produtividade é um ponto nevrálgico. A economista Patrícia Pelatieri Pelatieri ressalta que o avanço técnico muitas vezes se converteu em concentração de renda nas mãos de uma pequena elite, em vez de se traduzir em tempo livre para o trabalhador. Em última análise, o que Keynes subestimou foram as dinâmicas de poder no capitalismo e a resistência do sistema em abdicar da exploração da força de trabalho. Assim, o progresso técnico serviu para criar novas formas de vigilância e monitoramento, em vez de libertar o indivíduo para a 'arte de viver' conforme projetado no início do século XX.

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