A Imperatriz Leopoldinense oficializou, nesta terça-feira (12), o enredo que guiará a agremiação na Marquês de Sapucaí durante o Carnaval de 2027: "A Memória do Rei e o Sumiço de Dona Júlia". Sob o olhar sensível e a pesquisa profunda do carnavalesco Leandro Vieira, a escola de Ramos se prepara para desbravar os mistérios, a ancestralidade e a força da religiosidade popular brasileira, tendo como protagonista uma calunga — boneca sagrada do maracatu — que carrega consigo uma história de desaparecimento e um retorno marcado pelo sobrenatural.
A trama central gira em torno de Dona Júlia, uma boneca ligada ao Maracatu Porto Rico, que foi retirada de sua comunidade em 1978 para compor o acervo de um museu. No entanto, o que deveria ser um ato de preservação histórica transformou-se em um trauma para a agremiação pernambucana. A peça desapareceu dos registros e das dependências da instituição, permanecendo dada como perdida por mais de três décadas, até que, em 2014, o inesperado aconteceu. A boneca foi deixada em um terreiro por um estudante que alegava ser assombrado pelo objeto, culminando em uma reportagem televisiva que permitiu o reconhecimento por parte de seus legítimos guardiões, restabelecendo o elo sagrado entre o maracatu e a sua calunga.
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Para Leandro Vieira, o enredo não é apenas uma narrativa de busca, mas uma reflexão sobre a memória e o encantamento. O carnavalesco dedicou anos de estudo aos ritos de ancestralidade que envolvem as calungas, cujas existências representam a continuidade do axé dentro dos Maracatus Nação. A boneca Dona Júlia, especificamente, foi criada na década de 1960 para homenagear Dona Santa, a histórica rainha do Maracatu Elefante. O reencontro com a peça não é tratado apenas como um achado arqueológico, mas como um fenômeno de renovação espiritual que o artista pretende traduzir na linguagem do Carnaval carioca.
Em suas declarações, Vieira reforçou o compromisso com a identidade camaleônica da Imperatriz Leopoldinense. Ao afastar-se esteticamente dos desfiles anteriores, a escola propõe uma nova leitura sobre a visualidade das cortes dos maracatus, dialogando com a própria tradição visual da agremiação de Ramos. O desfile, que encerrará a segunda-feira de Carnaval no Rio de Janeiro em 2027, promete ser um mergulho profundo nas raízes pernambucanas, subvertendo ideias e reafirmando o compromisso da escola com a cultura popular brasileira como forma de expressão máxima na Sapucaí.






