Um relatório divulgado nesta quarta-feira (4) pela Human Rights Watch (HRW) aponta que 72% da população mundial vive atualmente sob regimes autoritários, indicando um avanço global do autoritarismo. A análise faz parte do Relatório Mundial 2026, que avalia a situação dos direitos humanos em mais de cem países.
De acordo com a ONG, a democracia global retrocedeu a patamares semelhantes aos de 1985. “A democracia está agora de volta aos níveis de 1985, com 72% da população mundial vivendo sob regimes autoritários. A Rússia e a China são menos livres hoje do que há 20 anos. E também os Estados Unidos”, afirma o documento.
O relatório cita estudos recentes, entre eles a pesquisa “25 Anos de Autocratização – A Democracia Triunfa?”, elaborada pela Universidade de Gotemburgo, na Suécia, que analisa dados desde 1974 e classifica quase 200 países em diferentes categorias de regime político.
Classificação dos regimes
Segundo o estudo, os países são divididos em seis grupos:
Autocracia fechada: ausência de eleições multipartidárias e de liberdades fundamentais;
Autocracia eleitoral: eleições existem, mas sem garantias reais de liberdade e justiça;
Autocracia zona cinzenta e democracia zona cinzenta: classificação incerta;
Democracia eleitoral: eleições livres, com liberdades políticas asseguradas;
Democracia liberal: além das eleições, há limites institucionais ao Executivo e proteção ampla das liberdades civis.
O Brasil aparece classificado como democracia eleitoral, enquanto Estados Unidos, França e Espanha são considerados democracias liberais. A Rússia é identificada como autocracia eleitoral, e a China, como autocracia fechada.
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Trump e o avanço autoritário
Para a Human Rights Watch, o primeiro ano do novo mandato do presidente americano Donald Trump representou um fator central no avanço autoritário global. Segundo o relatório, Trump “encorajou líderes autoritários e minou aliados democráticos”.
A ONG afirma ainda que o governo americano demonstrou admiração por movimentos de extrema direita nativista na Europa, ao mesmo tempo em que criticou líderes eleitos do continente. Além dos Estados Unidos, o documento destaca a “pressão implacável” exercida por China e Rússia contra os direitos humanos no cenário internacional.
Risco ao sistema global de direitos humanos
O relatório questiona se “os direitos humanos sobreviverão à era Trump” e aponta um “flagrante desrespeito” às normas internacionais. Entre as ações citadas como ameaças ao sistema global estão:
ataques à independência judicial nos EUA;
deportações e envio de imigrantes para prisões em El Salvador;
enfraquecimento da confiança no processo eleitoral;
retirada dos EUA do Conselho de Direitos Humanos da ONU;
cortes em programas de assistência alimentar e saúde;
retirada de proteções a pessoas trans e intersexuais.
Segundo a HRW, “a política externa de Trump abalou os alicerces da ordem internacional regida por leis que busca promover a democracia e os direitos humanos”.
Brasil no relatório
No capítulo dedicado ao Brasil, a ONG alerta para o avanço das facções criminosas e sua infiltração no Estado. A HRW defende investigações aprofundadas para identificar vínculos entre o crime organizado e agentes públicos, incluindo políticos locais.
“As facções cooptam agentes públicos para proteger suas atividades ilícitas. Essa infiltração é uma das faces mais perigosas do crime organizado, pois pode corromper as instituições por dentro”, afirma o relatório.
O documento também destaca que a segurança pública será tema central nas eleições presidenciais, apontando que crime e violência lideram as preocupações da população brasileira. Segundo levantamento do Ipsos-Ipec, 41% dos brasileiros indicam esse como o principal problema do país.






