Integrantes do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) classificam como grave e preocupante o episódio envolvendo a Venezuela, por representar o uso direto da força com objetivo político na América do Sul — algo que, segundo interlocutores do Palácio do Planalto, não ocorria no continente desde o século 20.
A avaliação interna é de que o ponto central da crise não está no método empregado, nem no uso de tecnologia ou algoritmos de localização supostamente associados ao regime de Nicolás Maduro, mas no precedente político e geopolítico aberto pela ação dos Estados Unidos.
“O aspecto tecnológico é secundário. O grave é o uso da força na América do Sul para fins políticos”, resumiu um auxiliar direto do presidente.
De acordo com fontes do governo, não houve sequer tentativa de construção de uma narrativa internacional que buscasse justificar a operação, como ocorreu em outros conflitos. Nos bastidores, a comparação feita é com a invasão do Iraque, durante o regime de Saddam Hussein, quando, ainda que controversa, a ação foi precedida por um discurso formal de legitimação. No caso venezuelano, avalia o Planalto, não houve disfarce nem pretexto.
A principal preocupação do governo brasileiro é que o episódio esteja relacionado à disputa por recursos naturais, especialmente o petróleo. Assessores avaliam que um eventual avanço de interesses norte-americanos pode, no futuro, incluir urânio e minerais estratégicos, abrindo espaço para novas ações semelhantes.
“Hoje é petróleo. Amanhã pode ser urânio, minerais estratégicos. Isso é o que assusta”, afirmou um assessor presidencial.
O tema ganha relevância adicional para o Brasil por razões geográficas e políticas. O país faz fronteira com dez nações e tem a Venezuela como vizinho direto. Embora o governo Lula não tenha apoiado o processo eleitoral venezuelano, a posição oficial é de que se trata de um país amigo, cuja instabilidade afeta toda a região.
“Não é uma defesa do Maduro. É defesa da soberania dos povos e da estabilidade regional”, reforçou um auxiliar.
No Planalto, também há cautela na leitura sobre o papel dos Estados Unidos. Auxiliares avaliam que o ex-presidente Donald Trump, favorito no campo republicano, atua menos por ideologia e mais por lógica de negócio.
“Ele não quer saber de democracia ou da Corina. Quer saber com quem pode negociar. Quer fazer um bom negócio”, disse uma fonte do governo.
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Na avaliação interna, uma eventual transição política na Venezuela poderia, sob a ótica de Trump, atrapalhar acordos econômicos em andamento, o que explicaria uma postura considerada ambígua. O governo brasileiro também insere o episódio em uma disputa mais ampla com a China, envolvendo energia, comércio e influência na América Latina.
Para o Planalto, o avanço da extrema direita global, representada por figuras como Steve Bannon, ex-estrategista de Trump, aumenta a instabilidade internacional.
“O mundo está sem ordem. Já não sabemos claramente o que é certo ou errado”, resumiu um auxiliar presidencial.
A conclusão dentro do governo Lula é de que o episódio é inédito na forma, perigoso no precedente e um sinal claro de que as regras tradicionais do sistema internacional estão sendo corroídas.
O assessor especial da Presidência para assuntos internacionais, Celso Amorim, reforçou essa leitura ao afirmar que, para o Brasil, o ponto mais grave é o uso da força na América do Sul.
Sobre possíveis reflexos internos, auxiliares afirmam que qualquer interferência dos Estados Unidos no processo eleitoral brasileiro dependerá do tipo de interesse que Trump venha a buscar no país. Nos bastidores, o governo relata adotar uma postura de extrema cautela diante da crise.






