Após meses de demonstrações de força e ameaças contra a Venezuela, o ex-embaixador dos Estados Unidos John Feeley afirmou que o presidente Donald Trump estaria pressionado a realizar ataques militares no país sul-americano para não demonstrar fragilidade política.
“Neste momento, Trump precisa explodir alguns alvos na Venezuela”, declarou Feeley em entrevista à BBC News Brasil. Segundo o diplomata, o presidente americano se encontra dividido entre as limitações da política eleitoral interna — que tradicionalmente desestimula novas guerras em ano eleitoral — e a necessidade de sustentar uma imagem de força. “Se não demonstrar sua força militar, parecerá fraco. E sabemos que Trump detesta fraqueza”, completou.
Feeley, considerado um dos principais especialistas em América Latina do Departamento de Estado, foi embaixador dos EUA no Panamá e deixou o governo em 2018, durante o primeiro mandato de Trump, por discordar de decisões do republicano.
Para o ex-embaixador, caso se confirme o ataque terrestre anunciado por Trump na última segunda-feira (29), a ação representará uma escalada significativa das hostilidades entre Washington e Caracas. No entanto, ele avalia que a própria forma como o presidente revelou a suposta operação — de maneira confusa e sem confirmação independente — compromete sua eficácia.
Trump afirmou que os EUA destruíram instalações usadas para armazenar drogas na Venezuela, mencionando apenas “uma grande explosão na área do cais onde as drogas são carregadas nos navios”. Segundo veículos como The New York Times e CNN, fontes do governo indicaram que a explosão teria sido causada por um ataque de drone da CIA, informação que não foi confirmada oficialmente pelas Forças Armadas, pela Agência Central de Inteligência ou pela Casa Branca. O governo venezuelano também não reconheceu qualquer ataque em seu território.
De acordo com Feeley, a divulgação de detalhes sobre operações clandestinas pode colocar agentes americanos em risco. “Revelar onde e quando atacaram não é a melhor maneira de proteger esses agentes de futuros ataques”, afirmou. Ele acrescentou que, se a operação não tiver ocorrido, “Trump simplesmente parecerá um velho confuso falando besteira”.
Nos últimos meses, os EUA intensificaram ações militares no Caribe e no leste do Pacífico, alegando combate ao tráfico de drogas. Mais de cem pessoas morreram nesses ataques, que especialistas em direito internacional classificam como ilegais, enquanto críticos do governo Trump os descrevem como execuções extrajudiciais.
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Washington também deslocou uma grande força naval para a região, incluindo o porta-aviões Gerald R. Ford, no âmbito da operação chamada Lança do Sul. Em outubro, Trump confirmou ter autorizado a CIA a conduzir operações secretas na Venezuela e, em dezembro, determinou um bloqueio total de petroleiros sancionados que entrassem ou saíssem do país. Desde então, navios venezuelanos foram apreendidos, interceptados ou perseguidos.
Para Feeley, o maior problema é a ausência de uma estratégia clara. “Uma estratégia sempre precisa começar com um objetivo final. Se o objetivo é a mudança de regime, por que isso não é declarado abertamente?”, questionou. Segundo ele, apesar do alto custo financeiro e humano das operações, “não está claro o que o governo Trump tem a mostrar”.
O ex-embaixador também afirmou que demonstrações de força isoladas não são suficientes para derrubar Nicolás Maduro. “Uma demonstração de força dos Estados Unidos não é suficiente para depor Maduro”, disse, acrescentando que a Venezuela não tem capacidade de escalar para um conflito direto com os EUA.
Por fim, Feeley comentou o papel da líder da oposição venezuelana María Corina Machado, vencedora do Prêmio Nobel da Paz, comparando sua atuação à de Ahmed Chalabi, político iraquiano que incentivou a invasão do Iraque em 2003 com base em informações falsas. Segundo ele, María Corina estaria usando o argumento do fentanil como justificativa para estimular uma intervenção americana no país.
“Por mais que admire a causa, ela está fazendo exatamente o que Ahmed Chalabi fez com o Iraque”, concluiu o diplomata.






