A ação militar dos Estados Unidos na Venezuela abriu um novo e delicado desafio para a diplomacia do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) em um contexto de pré-campanha eleitoral. De olho na reeleição em 2026, Lula precisa equilibrar a defesa da soberania venezuelana com a manutenção do diálogo político e econômico com o governo de Donald Trump.
A crise entre Washington e Caracas deixa o presidente brasileiro em posição sensível. Nos últimos meses, Lula vinha se reaproximando de Trump e conseguiu negociar a retirada da maior parte das sanções impostas ao Brasil, incluindo o tarifaço de 50% sobre produtos brasileiros e a aplicação da Lei Magnitsky contra o ministro do STF Alexandre de Moraes.
Após os bombardeios em Caracas e a captura de Nicolás Maduro, Lula condenou publicamente a operação, classificando-a como “uma afronta gravíssima à soberania da Venezuela e mais um precedente extremamente perigoso para toda a comunidade internacional”. Ainda assim, evitou críticas diretas ao presidente norte-americano.
Para especialistas, a situação exigirá habilidade diplomática. A professora de Relações Internacionais da FAAP, Marsílea Gombata, avalia que o Brasil precisará agir de forma estratégica para não romper canais de diálogo com os Estados Unidos. Ao mesmo tempo, terá de se posicionar como a maior economia da América Latina, preservando a tradição diplomática brasileira de mediação, não intervenção e defesa da soberania.
O tema também carrega forte impacto eleitoral. Durante a campanha de 2022, aliados do ex-presidente Jair Bolsonaro acusaram Lula de ser defensor de Maduro e da ditadura venezuelana. Para a professora da Unifesp Regiane Bressan, o Brasil deve apoiar a soberania da Venezuela, mas com cautela. “Esse é um assunto que dá munição e combustível à oposição”, afirmou.
O cientista político Leandro Consentino, professor do Insper, avalia que Lula enfrenta o desafio de condenar os ataques à Venezuela sem transmitir a imagem de conivência com um regime autoritário. Segundo ele, o presidente “paga um preço pelo alinhamento ideológico que tem com a Venezuela”.
Pesquisas de opinião já indicaram desgaste da imagem de Lula quando o tema veio à tona. Em 2024, declarações do presidente afirmando que havia democracia na Venezuela tiveram impacto negativo na avaliação do governo. Nos últimos meses, porém, Lula ajustou o discurso, deixou de reconhecer o resultado das eleições venezuelanas e passou a cobrar mais transparência do regime.
Para a cientista política Denilde Holzhacker, da ESPM, o governo adotou uma postura de cautela justamente por reconhecer o impacto eleitoral do tema. “Nos últimos meses, o governo Lula tentou se distanciar do Maduro exatamente porque sabe que isso mobiliza a opinião pública”, afirmou.
Especialistas avaliam que Lula não pode se omitir, sob pena de romper com a tradição diplomática brasileira, mas tampouco pode se expor excessivamente no debate interno.
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Próximos passos
A reação do Brasil dependerá, em grande parte, do processo de transição política na Venezuela. Ainda não há definição sobre quem assumirá o comando do país após a queda de Maduro nem por quanto tempo a intervenção americana deve durar.
O governo brasileiro realizou duas reuniões de emergência para tratar do tema. Lula, que estava no Rio de Janeiro, participou por videoconferência. Após os encontros, o Planalto informou que considera a vice-presidente Delcy Rodríguez como responsável pelo comando do país na ausência de Maduro.
O Brasil também participará de uma reunião do Conselho de Segurança da ONU, prevista para a próxima segunda-feira, quando deverá reiterar sua defesa da soberania venezuelana. Só após esse encontro deve ocorrer um contato direto com o governo dos Estados Unidos, segundo a secretária-geral do Itamaraty, Maria Laura da Rocha.
Enquanto isso, o governo acompanha com cautela as reações internas na Venezuela e os próximos movimentos de Washington. Esse cenário, segundo analistas, será determinante para as ações do Brasil e de outros países da região que já se posicionaram contra a intervenção.






