A Cáritas do Rio de Janeiro vive o momento mais crítico de sua história, segundo Aline Thuller, coordenadora do Programa de Atendimento a Refugiados. A instituição, que há décadas acompanha migrantes e solicitantes de refúgio no Brasil, enfrenta risco real de encerrar as atividades em 2026 devido ao corte abrupto de recursos internacionais.
Aline, que trabalha na organização há 18 anos, afirma estar sem salário pela primeira vez.
A crise teve início após o governo dos Estados Unidos, sob a administração Trump, suspender grande parte do financiamento destinado à USAid — responsável por cerca de 40% da ajuda humanitária global. A Cáritas, parceira do Acnur há mais de 40 anos, foi diretamente atingida, já que os repasses de 2025, previamente negociados, foram cancelados de forma antecipada.
A redução do orçamento do Acnur — que caiu quase 25% em seu montante global — agravou a situação. Segundo Pablo Mattos, oficial de Relações Governamentais da agência no Brasil, a ONU não via um orçamento tão baixo há cerca de uma década, quando o número de deslocados forçados era praticamente metade dos atuais 120 milhões.
“O impacto é devastador. Não conseguiremos atender cerca de 270 mil pessoas no Brasil”, afirma Mattos.
Sem alternativas, a Cáritas precisou suspender o auxílio emergencial que garantia alimentação, cuidados médicos e aluguel a recém-chegados. O curso gratuito de português atrasou e parte da equipe foi desligada. Ainda assim, a instituição atendeu mais de 78 nacionalidades somente neste ano.
Aline lamenta o cenário: “Nosso trabalho corre risco não porque deixou de ser necessário, mas porque vivemos uma crise de responsabilidade global.”
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Histórias interrompidas
Entre os muitos imigrantes que passaram pela instituição está Idrissa Deme, de Burkina Faso, que chegou ao Brasil em 2013 por meio de um convênio educacional.
Ele relata que o apoio da Cáritas foi crucial: documentação, acolhimento, orientação e suporte para sobreviver em um país desconhecido.
“Sem esse apoio, eu não sei o que teria sido da vida de muitas pessoas”, diz.
Efeito cascata global
A reorganização do governo americano sob Trump, com Elon Musk à frente do Departamento de Eficiência Governamental (Doge), levou ao fechamento quase total da USAid em outubro de 2025. França, Reino Unido e Alemanha seguiram a mesma linha, reduzindo suas contribuições internacionais e priorizando gastos em Defesa — todos envolvidos de maneira indireta na guerra da Ucrânia.
Outros projetos ameaçados
A Casa 1, centro cultural e de acolhida LGBTQIA+ localizado no Bixiga (SP), também foi golpeada pelo corte de verbas e anunciou que fechará em abril de 2026.
O espaço atende pessoas expulsas de casa, vítimas de violência, além de idosos da região que participam de atividades socioeducativas.
Segundo Iran Giusti, diretor institucional, o financiamento de projetos de diversidade já era difícil, mas a ascensão do conservadorismo intensificou os ataques e reduziu drasticamente o apoio internacional.
“O dia seguinte ao fechamento será um vazio. Somos uma trincheira em uma guerra que ainda está longe de acabar.”






