Um levantamento inédito realizado pela Comissão da Verdade, Memória e Reparação da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) trouxe à tona a dimensão da repressão imposta pelo regime militar à comunidade acadêmica entre os anos de 1964 e 1985. Segundo os dados parciais divulgados recentemente, pelo menos 649 pessoas — entre estudantes, professores e técnicos administrativos — foram alvos diretos de práticas autoritárias dentro da instituição. O estudo, que ainda segue em desenvolvimento com previsão de conclusão para os próximos três anos, documenta uma trajetória de violações aos direitos humanos que marcaram profundamente a história da universidade.
Do total de indivíduos identificados, 403 sofreram violações graves, que incluem registros confirmados de seis mortes, 156 prisões arbitrárias, 60 casos de tortura e 26 sequestros. O relatório destaca que o clima de terror no campus era tão severo que impedia, inclusive, a solidariedade entre os membros da comunidade acadêmica. O caso do advogado Marcelo Santa Cruz, que teve sua trajetória interrompida em 1969 por cassação política, ilustra o impacto dessas medidas. Ele, assim como outros colegas, foi proibido de se aproximar da universidade, sob pena de enquadramento na Lei de Segurança Nacional, vivendo anos de perseguição que afetaram não apenas sua formação acadêmica, mas toda a sua vida pessoal e familiar.
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A análise detalhada aponta que os centros de ensino mais atingidos foram a Faculdade de Direito, com 119 nomes citados, e a Faculdade de Medicina, com 99 casos. A maioria dos atingidos, cerca de 71%, era composta por homens, e a maior parte das vítimas tinha vínculo discente, representando 74% dos registros compilados. Além das violências físicas e cassações de direitos, o relatório aponta para um sistema de vigilância constante, onde centenas de outras pessoas foram monitoradas através de ofícios que solicitavam informações confidenciais sobre suas atividades políticas e acadêmicas.
A relevância desse trabalho reside na preservação da memória histórica e na reparação das injustiças cometidas durante as duas décadas de autoritarismo. A comissão continua analisando documentos internos e arquivos da instituição para que a totalidade das vítimas possa ser reconhecida. Esse esforço é fundamental para que as gerações atuais compreendam o custo da democracia e os horrores de um regime que buscou silenciar vozes contrárias através do medo, da exclusão e da violência física, deixando cicatrizes permanentes na estrutura universitária brasileira e nas famílias que até hoje buscam respostas sobre entes queridos que desapareceram.






