O Brasil registrou, em 2024, o menor número de homicídios por armas de fogo de toda a sua série histórica recente, segundo dados divulgados nesta terça-feira (26) pelo Atlas da Violência 2026. O estudo, elaborado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), aponta que a proporção de crimes cometidos com o uso de armamentos caiu para 70,1% do total de 42.590 homicídios contabilizados pelo Ministério da Saúde. Este índice representa uma redução de 8,8% em relação ao ano anterior, consolidando uma tendência de queda, embora o país ainda mantenha números preocupantes em comparação às médias globais.
A análise detalhada indica uma heterogeneidade profunda entre as regiões brasileiras. Enquanto estados do Sudeste apresentaram uma redução consistente na participação de armas de fogo em crimes violentos ao longo da última década, o Nordeste continua a enfrentar desafios críticos. A região concentra oito dos dez estados com as maiores taxas de letalidade por armas, com destaque para Ceará, Paraíba e Bahia. Especialistas atribuem essas disparidades a um conjunto de fatores, incluindo a transição demográfica desigual, a eficácia das políticas públicas estaduais e a complexa dinâmica de governança das facções criminosas que atuam em diferentes territórios do país.
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O relatório também chama a atenção para a sofisticação do armamento que chega às mãos de grupos criminosos. Observou-se uma mudança significativa no perfil das armas apreendidas, com a substituição gradual de revólveres por pistolas semiautomáticas e um aumento preocupante na incidência de armamentos de estilo militar. Segundo o Atlas da Violência, este cenário está associado à facilitação do acesso a calibres restritos ocorrida entre 2019 e 2022, o que teria fomentado o desvio de armas adquiridas legalmente para o mercado ilícito. O documento reforça que o controle do fluxo dessas armas é fundamental para a manutenção da tendência de queda na violência urbana.
Para Daniel Cerqueira, coordenador do estudo, a solução para a criminalidade violenta não se resume ao policiamento ostensivo. O especialista defende a necessidade de políticas públicas estruturais e inteligentes. Como exemplo positivo, ele cita o Pacto pela Vida, programa implementado em Pernambuco que focou na prevenção e na gestão estratégica da segurança. A profissionalização das facções criminosas, que em muitos casos buscam evitar conflitos diretos para manter operações de lavagem de dinheiro, contrasta com o cenário de violência no Nordeste, onde facções menores, formadas por jovens, travam disputas territoriais pelo varejo de drogas, elevando os índices de mortes violentas na região.






