Logo após a captura de Nicolás Maduro, no sábado (3), em Caracas, por forças americanas, a vice-presidente Delcy Rodríguez reiterou publicamente apoio ao chavista, afirmando que ele era o único presidente legítimo da Venezuela. No entanto, horas depois, a postura mudou.
Rodríguez declarou estar disposta a cooperar com o governo do presidente Donald Trump, defendendo uma relação “equilibrada e respeitosa” com os Estados Unidos. No domingo (4), ela foi reconhecida como presidente interina da Venezuela pelas Forças Armadas, consolidando-se temporariamente como a principal figura do poder no país.
Apesar disso, analistas avaliam que Rodríguez pode ser apenas mais uma peça no complexo tabuleiro político venezuelano. Trump afirmou no domingo que os Estados Unidos estão “no comando” da Venezuela e que discute os próximos passos com as novas autoridades do país.
Questionado se havia conversado com Rodríguez, Trump respondeu a jornalistas no Air Force One: “Não me perguntem quem está no comando, porque darei uma resposta muito controversa”. Em seguida, completou: “Significa que nós estamos no comando”.
O governo americano afirma estar disposto a trabalhar com remanescentes da estrutura chavista, desde que os interesses de Washington sejam atendidos, especialmente a abertura do setor petrolífero venezuelano a investimentos dos EUA. A Venezuela detém as maiores reservas de petróleo do mundo.
Possível traição interna
Para o analista político venezuelano Jesús Renzullo, do Instituto Alemão de Estudos Globais e Regionais (Giga), há fortes indícios de que Maduro tenha sido abandonado por sua própria liderança.
“Maduro muito provavelmente foi traído por sua própria liderança política. É uma farsa interna que os EUA estão tolerando”, afirmou Renzullo em entrevista à emissora pública alemã ARD. Segundo ele, o secretário de Estado americano, Marco Rubio, deixou claro que o governo venezuelano pode manter o discurso que quiser, “contanto que obedeça” aos interesses de Washington.
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Delcy Rodríguez, advogada de 56 anos, foi durante anos a principal mediadora entre Caracas e Washington, liderando negociações em nome de Maduro. Para Renzullo, o governo venezuelano adota agora uma estratégia dupla: manter a retórica de anti-imperialismo e soberania enquanto negocia, nos bastidores, com os Estados Unidos.
As exigências americanas incluem o rompimento com aliados como Rússia e China e o retorno das empresas petrolíferas americanas ao país. Por outro lado, não houve cobrança pública pela libertação de presos políticos venezuelanos.
“Esse claro sinal de intenções democráticas esteve ausente. Apenas a libertação dos presos americanos foi exigida”, destacou Renzullo.
Papel decisivo dos militares
Em meio à instabilidade, as Forças Armadas seguem como fator central de poder. O ministro da Defesa, Vladimir Padrino, mantém apoio a Rodríguez, e, até o momento, a cúpula militar aparenta unidade.
No entanto, o economista venezuelano Manuel Sutherland vê risco de conflitos internos. “Delcy Rodríguez não é popular entre os militares. São cerca de 2.500 generais, e todos querem garantir seus privilégios e interesses econômicos”, afirmou.
Além do temor de perda de benefícios, parte da cúpula militar estaria envolvida em prisões arbitrárias, torturas e assassinatos de opositores, o que poderia resultar em responsabilização judicial em caso de mudança de regime.
Oposição à margem
Enquanto isso, a líder da oposição María Corina Machado permanece no exílio. Apesar de ter unificado a oposição no passado e recebido o Prêmio Nobel da Paz, em outubro, ela teve seus planos frustrados por Trump, que afirmou que a oposicionista não teria apoio popular suficiente.
Ainda assim, Renzullo avalia que Machado pode tentar reorganizar suas bases e criar pressão interna para uma transição democrática. O desafio, porém, é grande, já que boa parte da oposição deixou o país.
Até agora, os sinais de Washington indicam que o foco está no petróleo e na influência geopolítica, não em eleições livres ou reformas democráticas. O cenário que se desenha é o retorno da Venezuela à esfera de influência americana, sob uma liderança cooperativa — com ou sem legitimidade democrática.






